sábado, 23 de março de 2013

Formação? Ou ilusão?

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O que se entende por formação? "A formação é um processo contínuo e sistemático de aprendizagem no sentido da inovação e aperfeiçoamento de atitudes, saberes e saberes-fazer e da reflexão sobre valores que caracterizam o exercício das funções inerentes a cada profissão." (1) Mas a formação também pode ser "um conjunto de possibilidades de adaptação activa, algo muito diferente de «acomodação», ou seja, a oferta de um máximo de esquemas de comportamento possíveis face a novas situações e a condução a prováveis associações dos mesmos." (2)

Daí uma federação apostar na formação (complemento e/ou atualização de conhecimentos) dos seus treinadores.

De 2007 a 2009 a FNK-P ofereceu aos seus treinadores (em programa apresentado e calendarizado no início de cada época desportiva) 8 ações de formação distribuídas pelas 6 zonas do país (incluindo Açores e Madeira), sendo a formação que ia ao encontro dos treinadores e não estes atrás da mesma (Lisboa, Viseu, Paredes, Vila das Aves, Funchal, Almada, Porto, Guarda, Beja, Carcavelos, St.º Tirso e Ponta Delgada), e assim designadas: 1- Novas tendências da arbitragem; 2- As regras de competição adaptadas aos jovens; 3- Diário electrónico do treinador; 4- Metodologia de Treino de Shiai Kata; 5- Liderança e ansiedade no karate; 6- O marketing ao serviço do karate; 7- Ética, desporto e karate; 8- A legítima defesa e o praticante de karate.  

Em 2007 foram realizadas 10 ações de formação, num total de 33 horas, estando presentes 339 treinadores. Em 2008 realizaram-se 21 ações de formação, num total de 69 horas, em que participaram 550 treinadores. Em 2009 o panorama foi idêntico...

Os treinadores podiam livremente escolher os temas que mais lhes interessavam, para os quais tinham mais apetências ou estavam mais motivados, podiam selecionar os assuntos em que sentiam mais carências e escolherem as ações de formação em que queriam participar - daí a média aproximada de cerca de 29 treinadores em cada ação de formação.



Mas agora, como os treinadores têm de fazer em média por ano 12,5 horas, 15 horas ou 20 horas, todos acorrem - cerca de 90 em cada ação de formação - às ações de formação que aparecem mês sim mês não, mesmo que o assunto não lhes interesse diretamente! Mesmo que não estejam motivados... O que interessa é estar presente (diferente de participar e adquirir conhecimentos para transpor para o dōjō)... o que interessa são as tais horitas!!!


(1) ONOFRE, M., 1996, “A Supervisão Pedagógica no Contexto da Formação Didáctica em Educação Física”, in Carreiro da Costa, F.; Carvalho, L. M.; Onofre, M. S.; Diniz, J. A. e Pestana, C., “Formação de Professores    em Educação Física – Concepções, Investigação, Prática”, FMH-UTL, Cruz Quebrada, pp. 75-118.

(2) LAGRANGE, G., 1977, “Manual de Psicomotricidade”, Ed. Estampa, Lisboa.

sábado, 9 de março de 2013

Perseguição política


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Fernando Tenreiro é um conhecido economista do desporto. Professor universitário, durante muito tempo manteve o seu blog ativo (Desporto e Economia). Um blog conjunto com João Boaventura e Bruno Avelar Rosa. Um blog válido e esclarecido - e esclarecedor!

No passado dia 26 de fevereiro, Tenreiro anunciou que "por perseguição política, improvável numa democracia real este blogue sobre o desporto português e uns pós de economia e bem fazer, termina aqui."

Num comentário a 5 do corrente, Tenreiro ainda escreveu:

" (...) a democracia no desporto português é o deserto de reacções ao que lhe acontece.
A democracia no desporto não é feita por uma voz isolada e mais duas que se incomodam.
O desporto português deixa muito a desejar como democracia e a sociedade paga-lhe da mesma forma.
Para o desenvolvimento da actividade associativa desportiva os exemplos de austeridade, desnorte, e erro também, são muitos, sem me dirigir a ninguém a particular.
No desporto português há muito medo e essa a razão para chegar à sua desconfortável situação actual."

Esclarecido e esclarecedor, para quem sabe e conhece o e do desporto, Fernando Tenreiro terminou com uma das suas maiores lições!!!
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sábado, 2 de março de 2013

Finalmente! Qualquer outro RJFD será melhor que este!

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Finalmente um grupo de trabalho para proceder à análise do diploma que estabeleceu o Regime Jurídico das Federações Desportivas (publicado ontem no D. R.):

Dr. Vasco Paulo Lynce de Faria (coordenador);
Prof. Doutor José Manuel Meirim;
Prof. Doutor Pedro António Pimenta da Costa Gonçalves;
Prof. Doutora Maria José Carvalho;
Mestre Alexandra Pessanha;
Mestre Ana Celeste Carvalho;
Mestre Lúcio Miguel Teixeira Correia;
Mestre Paulo de Moura Marques;
Mestre Ricardo Alberto Santos Costa;
Dr. José Luis Pereira Seixas;
Dr. Luís Paulo Relógio;
Dr. Gonçalo Silvestre, em representação do Gabinete do Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares;
Dr. Guilherme Müller Araújo, em representação do Gabinete do Secretário de Estado do Desporto e Juventude;
Dr. João Diogo Manteigas, em representação da Associação Portuguesa de Direito Desportivo;
Dr. Humberto Santos, em representação do Comité Paralímpico de Portugal;
Prof. Doutor Carlos Paula Cardoso, em representação da Confederação do Desporto de Portugal. 

Residem nestas pessoas as nossas esperanças...

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O Karate-dō olímpico!

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O naufrágio*
 
Apenas o hipopótamo e o seu dono escaparam ao naufrágio, saltando para cima de um pequeno bote.

O hipopótamo era o ganha-pão do homem e por isso quando o pequeno bote se começou a inclinar para o lado onde estava o animal, o homem ficou preocupado com a possibilidade de este se afogar. Para evitar que a pequena embarcação se desequilibrasse completamente o homem cortou um pedaço do hipopótamo e comeu-o, o que também era oportuno pois começava a estar com fome. O pequeno pedaço tirado ao hipopótamo permitiu que o bote recuperasse o equilíbrio entre os dois lados, como uma balança. Mas por pouco tempo. Novamente o bote começava a ir ao fundo do lado do hipopótamo. Este, apesar do bocado que lhe fora retirado, ainda era mais pesado que o seu dono. O homem decidiu então comer mais um pedaço do hipopótamo. Depois de o fazer, olhou para o barco e viu que ainda não era suficiente: tirou mais um bocado do animal e comeu-o. O barco recuperou o equilíbrio.

A viagem durou ainda algumas semanas e o homem, de seis em seis horas, via-se obrigado a cortar mais um bocado do animal.

Talvez não fosse a solução perfeita, mas não poderia correr o risco de perder o hipopótamo.

 (Foto: The K is on the Way Karate 2020)

Karate-dō tem sido um grande hipopótamo... Agora pretende-se que ele faça parte do programa olímpico de 2020 mas sem a prova de Kata!!!



* Gonçalo M. Tavares, 2004, "O Senhor Brecht", Lisboa, Ed. Caminho.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Aos que querem ser treinadores...

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Recentemente, no Fórum de Formadores da FNK-P, equacionou-se a questão dos novos Cursos de Treinadores... Recordamos que o Curso de Grau I possuirá 40 horas de formação geral, 40 horas de formação específica e 550 horas de estágio.

Primeira questão: montante da inscrição no curso? Se os anteriores cursos de treinador monitor implicavam uma inscrição de 100€ para uma carga horária de 30 horas... para 630 horas o candidato terá de pagar como inscrição a quantia de... ... ...

Segunda questão: sendo a formação comparticipada pelo Estado através de contratos-programa, justificar-se-á a duplicação ou triplicação da inscrição conforme o ventilado no referido Fórum?

Antigamente havia praticantes que faziam o CTM não para exercerem funções pedagógicas, mas pura e simplesmente para aumentarem os seus conhecimentos! Provavelmente daí o facto de dos "2100 treinadores de Karate acreditados no anterior modelo de formação cuja responsabilidade total na sua organização foi da Federação Nacional de Karate – Portugal (FNK-P), passámos para um número próximo dos 1300 treinadores possuidores de Cédula de Treinador de Desporto – Karate (CTD/TPTD)" conforme refere a própria Federação.

Quem irá pagar 200 ou 300 Euros para aumentar os seus conhecimentos? Quem irá pagar 200 ou 300 Euros para dar treinos (e quando os reembolsará através das remunerações?) Receia-se que não haja inscrições suficientes para realizar um curso destes... ora, anteriormente a formação sempre se sustentou a si própria! O que se quererá dizer com "não haver inscrições suficientes"? Prejudiquem-se alguns... em detrimento de outros!

Terceira questão: a orientação dos estágios! Estes estão já perfeitamente definidos (regulamentos de estágios), mas só agora é que se acordou para o "como" e "com quem" em relação à sua organização... Já em setembro do ano findo 17 federações desportivas começaram a debater o assunto, sem sabermos se a FNK-P se envolveu neste debate! Mas que foi alertada anteriormente, isso foi, pois continua em vigor o mesmo «regulamento de formação de treinadores» apesar do PNFT... Se uma licenciatura em Educação Física possui um estágio de cerca de 170 horas - veja-se por exemplo o que se passa na FMH - por que motivo um simples Curso de Grau I terá 550 horas?

Não haverá candidatos? Perdem-se clientes? Não se justificam as verbas atribuídas?
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Triste país este... Três questões!

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28 competidores convocados para "defender as cores nacionais" na Turquia dependerão do seu bolso - do bolso da sua família - ou do bolso das suas associações. Triste país este...

(Foto: FNK-P)

Na convocatória de 20 do corrente, pode-se ler o seguinte:"Condicionada que se encontra a FNK-P na disponibilidade económico-financeira, e baseada na convocatória provisória, encetou a direcção contactos com as associações que têm os seus atletas convocados, com vista ao pagamento das despesas dos atletas." - Pais há que para garantirem que os seus filhos defendam as cores nacionais já desembolsaram cerca de 1000/1200 Euros! 

Através de contratos-programa, o Estado financia a alta competição. Poderão as verbas vir mais tarde - mas a questão que se coloca é: irão os atletas ser ressarcidos das quantias que despenderem após a federação receber essas verbas?

Outra questão se coloca: se uma federação tem 60 associações em que cada uma paga anualmente 500€ (60x500 = 30.000€) e 14.000 praticantes a pagar cada um 5€ (5x14.000 = 70.000€), a mesma não possui verbas?

Uma última questão: dois dirigentes, dois selecionadores e dois árbitros, irão à Turquia a "expensas próprias"?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

10 anos de trabalho!

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Desde 25 de janeiro de 2003 que a PGKS, representante em Portugal da Okinawa Gōjū-Ryū Karate-Dō Kyōkai (沖縄剛柔流空手道協会), possui o seu dōjō próprio, o qual foi inaugurado nessa mesma data pelo Sensei Ryoichi Onaga. Dez anos se comemoram hoje, de trabalho e de dedicação, pretendendo aqui agradecer a todos aqueles que me dão a oportunidade de com eles repartir algo! 

Sensei Onaga inaugurando o dōjō

O grupo inicial: André, Cristina, Armando, Rui, Gonçalo e Filipe de pé;
Alexandre, Núrya, Ricardo e Vensã sentados.

Alguns dos que hoje em dia aqui praticam...
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Coragem e legalidade!

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A Federação Portuguesa de Vela poderá ter de efetuar novas eleições dos órgão sociais, após a 12ª Vara Cível de Lisboa ter ordenado a suspensão das deliberações tomadas na Assembleia-Geral - pode-se ler em «A Bola» de hoje, na página 39. 
Motivo: cadernos eleitorais errados, que terão de ser corrigidos!
Coragem de três Associações que apresentaram inicialmente uma providência cautelar...




Falta de coragem de Associações e Clubes que aceitaram os cadernos eleitorais errados na última Assembleia-Geral  da FNK-P (aqui e aqui) dado que a mesma não foi impugnada... tendo até sido eleitos delegados cujos nomes nem dos cadernos eleitorais constavam... vivendo-se assim numa ilegalidade legal!


E depois falam-nos numa modalidade que segue os princípios do Bushidō e em que cada estilo até possui um Dōjō-kun...
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sábado, 12 de janeiro de 2013

Comparações... ou talvez não!

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Semana dominada pelos melhores de 2012: melhor futebolista, melhor treinador, melhor melhor... Poucos falaram de Bolt, de Phelps ou de Serena Williams (exceção feita a  António Simões).

Semana em que Sidónio Serpa se preocupou com a educação do atleta, frisando que "a promoção do ser humano inteiro não se deve limitar à obsessão pelo resultado desportivo" e em que Manuel Martins de Sá nos veio mais uma vez dizer que na Argentina as claques gerem o tráfico dos bilhetes falsos e da droga com o apoio da polícia...

E depois ainda dizem que Guardiola recusou cumprimentar Ronaldo... e que Armstrong vai ao programa de Oprah contar toda a  história - serão notícias relevantes?

Semana em que ficamos a saber que a Federação Portuguesa de Ginástica passou a cobrar as entradas nas provas nacionais...

Mas o que interessa isto a quem pratica Karate-dō? Nada, a não ser que sirva para estabelecer comparações... ou talvez não!

Querem exemplos? 

Temos três embaixadores para a ética no desporto: o que fazem neste domínio?

Temos treinadores (é o único termo que está na lei) e não sabemos se são instrutores ou mestres... porque à partida a missão do treinador é preocupar-se com o resultado competitivo!

Temos uma final do nacional de Clubes onde um juiz empunha a bandeira vermelha com a mão esquerda e os outros quatro com a direita (será que ele quis mesmo levantar a bandeira azul na sua mão direita?)...

Continuamos a ter um site federativo onde as deliberações do C. D. e do C. J. continuam em branco, contrariamente à lei... ou não existem processos disciplinares?

E se a Federação começar a cobrar "ingressos" nas provas nacionais?

Deixem lá, desistam, amanhã é dia de clássico... todos iremos saber o resultado do Benfica - Porto mas poucos irão saber o que foi resolvido hoje na Assembleia Geral da FNK-P...
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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Progressão da Hierarquia no Karate-dō.


Recebido de um amigo identificado, o que agradeço, publico o presente texto para que se possa refletir sobre o seu conteúdo!


Esta é a minha posição há mais de 25 anos. Estou a ficar cansado de tanto Dan de promoção ou liquidação total. 
E é a minha posição sobre a progressão da hierarquia no Karate-dō sustentada numa avaliação com parâmetros iguais.
Existe mais de uma dezena de estilos de Karate-dō, algumas centenas de associações de estilo e transversais e uma enorme disparidade nos critérios de graduação de todos estes cintos negros, cuja progressão deveria ser programada e aferida por um colégio de gente competente e com conhecimentos multifacetados.
É o que acontece nas Federações espanhola (há mais de trinta anos), francesa e italiana, para não falar de outras, as quais não aceitam graus atribuídos pelo exterior, para poderem harmonizar a modalidade segundo critérios a cumprir por todos. Isto para além de que a fonte de receita que os japoneses ou seus substitutos bebem , poder passar a ser federativa, remunerando ainda os membros dum eventual Conselho de Graduações. Dificuldades para montar uma organização, claro que há, mas, não é para vencer dificuldades e abrir caminho ao progresso que existem as Federações?
Em 1988 entreguei ao sr. Presidente da FPKDA um “Projecto de Regulamento de Graduações” que previa, para além de programas técnicos de exame por grau e por estilo, uma bastante equilibrada distribuição crescente de dificuldades para vencer, por forma a harmonizar essa evolução de forma justa.
Nunca nada se fez. Resultado, há gente com 6ºs e 7ºs. Dan que beneficiaram da amizade, generosidade ou outras estratégias comerciais ou políticas enquanto outros que “deram sempre o litro” não acompanharam (por exigência dos seus mestres) a harmonia que uma qualificação deve sempre conter.
A título de graça, existiam 6ºs Dan japoneses no seu estilo, que apenas eram 4ºs. Dan na Federação espanhola (que conheci bem), e, por isso, venho ressuscitar essa ideia, dado que até fico tonto, por vezes, com tanto Shian que ao pé de yondan e godan não valem um traque.
Existe ou não existe um Conselho de Graduações na FNK-P?

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Um desporto com nove dedos...

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No recente Seminário "Move-te por valores", Gonçalo M. Tavares, escritor e Professor na Faculdade de Motricidade Humana, iniciou a sua intervenção apresentando-nos dois contos de sua autoria. Um deles, «A revolta»*, aqui fica, com as necessárias ilações...


Para o Rei era fundamental que toda a população, sem excepção, estivesse satisfeita.
Quando apareceu aquele estrangeiro extremamente feliz e com seis dedos em cada mão, o Rei ordenou que os médicos do Reino implantassem mais um dedo em cada um dos habitantes. E que os médicos fizessem o mesmo uns aos outros. Ninguém invejaria os seis dedos daquele estrangeiro.
Assim se fez. Todos ficaram com seis dedos em cada mão.
No ano seguinte chegou outro estrangeiro - com ar ainda mais feliz - que tinha sete dedos em cada mão.
O Rei de novo ordenou que os médicos do Reino implantassem mais um dedo em cada um dos habitantes. Assim foi feito.
No ano seguinte um estrangeiro com oito dedos por mão, que não parava de exibir a sua felicidade, provocou nova implantação geral: oitavo dedo.
No ano seguinte: um estrangeiro com nove dedos. E ainda mais feliz.
A mesma operação. Todos os do Reino ficaram com nove dedos em cada mão. Dezoito no total.
Foi então que no ano seguinte chegou um estrangeiro com o rosto mais feliz que alguma vez fora visto por ali com cinco dedos em cada mão.
Depois de um momento de hesitação, o Rei ordenou aos médicos que cortassem quatro dedos por mão a cada habitante.
Havia um problema, no entanto. Os nove dedos em cada mão dos cirurgiões já não conseguiam operar: os dedos atrapalhavam-se uns aos outros. Já não era possível: teriam que ficar todos com nove dedos em cada mão.
Como o Rei não conseguiu dar à população os cinco dedos daquele estrangeiro feliz, rebentou uma revolta e o Rei foi deposto.
(Foto: http://pt.dreamstime.com)

Quando se aborda uma mudança de valores em toda a nossa sociedade, com este exemplo, metáfora atual, concluímos que o desporto - analisando toda a sua evolução ao longo da história e das civilizações - depois de ter nove dedos nunca mais conseguirá voltar a ter cinco dedos...


* Gonçalo M. Tavares, 2004, "O Senhor Brecht", Lisboa, Ed. Caminho.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Seminário "Move-te por valores" - notícia que não chega!

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O Plano Nacional de Ética no Desporto, o Instituto Português do Desporto e Juventude em colaboração com a Faculdade de Motricidade Humana - Universidade Técnica de Lisboa realizaram hoje o Seminário sob o lema "Move-te por Valores", que teve lugar no Salão Nobre daquela Faculdade, o qual apresentou um painel de oradores notável e com intervenções de grande qualidade.





Um Seminário ao qual gostariam de ter assistido muitos Treinadores de karate-dō e muitos karatekas... mas que infelizmente não foi divulgado entre a nossa comunidade e muito menos na página da FNK-P (a qual é parceira institucional do PNED) ou na página do facebook "FNKP - Federação Nacional de Karate Portugal (unofficial)"! No entanto estiveram presentes no mesmo o Presidente desta Federação, assim como o Diretor do Departamento de Formação!

karate-dō tem três Embaixadores para a Ética no Desporto... dois deles estiveram lá!


Uma informação que não se publicitou... uma notícia que não chega... uma sonegação de uma realização... A quem interessam?

domingo, 9 de dezembro de 2012

Seppuku (切腹)


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Dois animadores de rádio australianos divertiram-se com um telefonema para um hospital... As televisões transformaram-no em "reality show"! O público riu-se!!! A enfermeira que atendeu o telefonema e transferiu a chamada suicidou-se! Os animadores foram criticados...

A 2Day FM declara: "estamos convencidos que não fizemos nada de ilegal." JUSTIFICAÇÃO errada!!! A questão é: O QUE FIZERAM CABE DENTRO DOS LIMITES DA ÉTICA  E DA DEONTOLOGIA??? Os dois animadores estão a receber aconselhamento intensivo...

Miguel Esteves Cardoso escreve no «Público» de hoje (p. 53) o seguinte: "A diabolização dos dois apresentadores australianos é inaceitável. Ninguém tem culpa. Não é essa a tragédia. A tragédia é que uma pessoa se matou sem razão para se matar. Foi vítima de um princípio de honradez que ela tinha: foi pena ter sido tão honrada. Se alguém tem culpa é a curiosidade pública à volta da gravidez da mulher que casou com o filho mais velho do príncipe Carlos. A curiosidade pública é um monstro bisbilhoteiro e é muito pior do que os monstrengos que decidem ganhar a vida a saciá-la."

Foi pena? Há que ter pena de todos aqueles que cometeram seppuku (切腹)? 

Pergunta-se: a "moral" australiana" é diferente da "moral" inglesa?


Nota: ontem participámos numa ação de formação em que foi abordada a ética no karate-dō... meditemos!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

É preciso fechar algumas modalidades...

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Para sabermos que futuro estará eventualmente reservado ao nosso desporto, aconselha-se a leitura da crónica de António Varela, Editor Chefe do jornal «Record», publicada na edição de hoje na página 40 sob o título "Que remédio!...", e que a seguir transcrevemos com a devida vénia.

O Governo encomendou um estudo à consultora PricewaterhouseCoopers (PwC) para saber como é que Portugal, um pequeno país periférico do Sul da Europa, sujeito aos humores dos mercados e às teorias charadísticas das agências de rating, pode ganhar mais medalhas nos Jogos Olímpicos com um nível de investimento menor do que o atual.

E a PwC não se fez rogada. Em menos de um mês fechou o estudo e concluiu que a delegação portuguesa devia ter abandonado Londres'2012 não com uma (a prata ganha pela dupla da canoagem Emanuel Silva - Fernando Pimenta), mas com 5 medalhas. E apontou imediatamente o remédio para curar a sangria de dinheiros públicos sem retorno desportivo: é preciso "fechar algumas modalidades".

Esta terminologia utilizada correntemente por quem está habituada a "cortar o mal pela raiz", "reduzindo custos", "otimizando recursos", fazendo "downsizings" e "upgradings", levanta desde logo uma dúvida que os senhores juízes do Tribunal Constitucional se encarregarão de responder, provavelmente a pedido de algumas dessas modalidades que "deve fechar": "pode fechar-se uma modalidade", cortando-lhe os fundos de apoio públicos?

Num país que tem consagrado na lei fundamental o livre associativismo; num país em que a lei não prevê o intervencionismo estatal, como é que isto se faz? O Secretário de Estado da Juventude e Desporto, Alexandre Mestre, já informou o Comité Olímpico de Portugal e as federações que devem pronunciar-se até dia 3 de dezembro. A partir daí, julgo que ele próprio se encarregará de explicar aos portugueses, os que têm aspirações de participar nos Jogos Olímpicos e os outros, que gostam de desporto e aspiram ainda a viver num país livre, democrático e sem mais este grilhão do Estado, como é que a coisa se faz. Sim, está este mundo e o outro em pulgas para descobrir como será esta cura da PwC. E quanto custou, já agora.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Construir... e sermos independentes!

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Construir sociedade e comunidade significa que se não evita nenhum dos desafios que a humanidade enfrenta num momento crítico para ela. Os problemas sejam eles de que índole forem, devem ser encarados de frente sem ambiguidades, com a clara decisão de os resolver ou, pelo menos, de o tentar fazer. Não o fazer assim é trairmo-nos a nós mesmos e aos que acreditaram que essa era a nossa obrigação. Dizer a verdade ao poder, bem como aos que o exercem ou se escondem cobardemente atrás dele, não é uma alternativa entre muitas, mas a única possível.

Sermos independentes é sermos capazes de defender as próprias ideias, mas também confrontá-las e pô-las em comum com os que pensam de forma diferente, mas estão dispostos a somar esforços para conseguir uma convivência melhor e tornar este mundo mais livre, mais seguro e mais justo.

Palavras de Baltasar Garzón no seu livro "Um Mundo sem Medo", aqui reproduzidas com os meus agradecimentos a um amigo: Luís Sérgio Mendes.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A "arte" do treinador ou a "arte" do Mestre?

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Equacionar o termo "arte" num contexto de «arte marcial» arrastou-nos para outras perspetivas! Uma colaboração, que divulgamos aqui, chega-nos através de António Santos - e com o equacionamento de novas questões! Os nossos agradecimentos!


OSS

Ora vamos tentar dar uma ajudinha na temática da "arte", o que nos leva ao DESPORTO DE COMBATE ou ARTE MARCIAL...

Penso que os karatekas podem não saber teorizar a menor distância entre dois pontos, mas sabem muito bem percorrer a distância mais curta entre dois pontos (uma linha reta).

Os karatekas sabem bem o que é o/a Bunkai, os treinadores é que podem ter dúvidas.

Os treinadores são obrigados a preocuparem-se com o resultado desportivo, mas o objetivo dos Sensei é ensinar KARATE-DO.

O tema levantado é pertinente e atual, mas para mim preocupa-me mais onde é que tem de ser discutido.

Provavelmente numa organização de karatekas, mesmo que ela se chame Associação Nacional de Treinadores de Karate.

No dia 10 de setembro de 1994 em Coimbra e a 21 de Abril de 1996 em Lamego, alertei para esta questão o então preletor (agora presidente da ANTK) de uma ação de formação da Federação, dizendo-lhe que não me identificava como treinador. A reação foi mais ou menos:
- Este tipo que vem lá do estrangeiro pensa que é quem?
Perante tal reação calei-me, e apenas lhe pedi uma assinatura no meu passaporte desportivo (recordo que o atual presidente da ANTK foi o interpelado).

Estou em querer que o passo tinha que ser dado, porém logo aí devíamos ter acautelado se havia diferença entre arte marcial e desporto de combate.

Agora estamos no dilema:
Somos treinadores de desporto ou mestres de karate-do?

Alguns, embora não soubessem param onde iam, queriam era dar um passo grande. O certo é que chegados aqui, (uns de forma voluntária, outros puxados e outros arrastados) olhamos uns para os outros e começamos; ai ai ai ...ai ai ai que não me sinto bem com o rótulo  de treinador, pois não me diferencio entre treinador de desporto e mestre de arte marcial.

Aconselho a tomarmos o exemplo do Sensei Chujun Miyagi em 1940 quando perante uma situação difícil criou um/a kata que se dá pelo nome de Gekisai dai ichi, e tem a particularidade de no final avançar com o pé direito.
Avançamos todos, nem que seja apenas um só passo, rumo à nossa organização de classe, mesmo que ela se chame ANTK.
Uma vez a casa arrumada, podemos teorizar as diferenças entre o desporto de combate e as artes marciais. Para além de tentarmos saber "arte: o que é?" teremos de saber onde está a "arte"...

Mas atenção, todos são mesmo todos. Porque o todo é sempre mais do que a soma das partes.

António dos Santos.
Praticante de GOJU-RYU.

domingo, 21 de outubro de 2012

Arte: o que é?


Já nos preocupámos muito com o termo "marcial", mas rara é a vez em que nos pre-ocupamos com termo "arte" - proveniente do latim ars (técnica e/ou habilidade).

(Fotos: capa de «A Bola», 22.08.2012 e capa de «Mind Power», de Kazumi Tabata,Tuttle Pub.)

A grande questão que quero aqui colocar aos leitores deste blog é a seguinte: se afirmamos que o karate-dō é uma "arte marcial", o que se entende por "arte" nesta situação? 

Aceitam-se sugestões... comente por favor!

domingo, 14 de outubro de 2012

Demitam-se, sejam honestos!



Devemos desafiar os treinadores de escalões jovens a pensar primeiro o processo.
Tomaz Morais
(«A Bola», 12.10.2012, p. 40.)


Este deveria ser, por exemplo, um dos desafios já há muito lançado aos treinadores de karate-dō... por quem possui responsabilidades na matéria! Não sabemos é se existe esse "quem"...

Mas nós, treinadores de karate-dō, sabemos que existe  (ou que não existe...) uma Associação Nacional de Treinadores de Karaté, e conhecemos a sua obra (?) desde o seu início em 2000... 

Mas não vamos falar do passado... vamos falar de uma associação que gostaríamos de ter (pelo menos alguns treinadores, talvez a maior parte!)... talvez no futuro!

Mais do que cargos repartidos por estilos, associações ou por zonas do país seria benéfico ter um grupo que trabalhasse em prol dos treinadores, os representasse, defendesse os seus interesses e com o qual pudéssemos contar e colaborar .

Gostaríamos de ter uma associação em que se reunissem todos os treinadores - ou a maior parte deles - com direitos e deveres iguais, sem termos de ter  associados Fundadores, Ordinários e Extraordinários (estes últimos, não estando especificamente incluídos na categoria anterior, são aqueles que "manifestem um relacionamento atendível com as actividades de ensino e treino de Karaté" - serão "treinadores" sem cédula de treinador de desporto?). Gostaríamos de ter uma associação em que todos tivessem direito a voto, até mesmo aqueles que frequentaram os seus cursos de formação, podendo no entanto não exercer o ofício!

Gostaríamos de ver uma associação com uma Direção ativa e dinâmica, uma associação em que os órgãos gerentes fossem eleitos para um período de quatro anos (e não três), acompanhando os ciclos federativos, colaborando com a Federação... para promover a nossa modalidade.  Uma Direção que se preocupasse com as preocupações dos treinadores, interventiva e que nos congregasse. Zélia Matos diz que, em relação à competência para intervir, se devem distinguir "duas componentes principais – o conhecimento e a disponibilidade para agir."* Só conhecimento não chega... Não há disponibilidade? Demitam-se, sejam honestos!

Seria ótimo vermos uma associação de classe preocupar-se em dinamizar a existência de comissões de apoio. Um exemplo: uma comissão que levasse os árbitros a ensinar verdadeiramente as regras e os regulamentos de arbitragem aos treinadores virados para a competição. Mais dois exemplos: uma comissão que elaborasse os tão propalados códigos éticos e deontológicos, assim como uma comissão de juristas para apoio aos treinadores e à Direção nos casos de disciplina e na aplicação de sanções, assim como para a defesa legal dos treinadores. No que se refere à defesa dos interesses dos treinadores, quantos deles conhecem as cláusulas da apólice do seguro desportivo?

Gostaríamos de ver uma associação de treinadores com um site autónomo onde, para além do comum, se colocasse a listagem dos treinadores licenciados. Pais, praticantes, competidores e público em geral deveriam saber quem está habilitado a ministrar o ensino, o treino e a prática do karate-dō.  Isto seria uma medida pedagógica e uma medida fiscalizadora! Ou que cumprisse os seus Estatutos publicando os nomes dos seus associados... Gostaríamos de ver essa associação organizar, pelo menos de dois em dois anos, um Congresso de Treinadores, a fim de poder dar voz aos seus anseios, reunindo mesmo todos os que não fossem seus associados. A informação hoje em dia é célere - gostaríamos de ter uma associação que criasse um blog onde todos se pudessem expressar ou levantar as suas questões, não de ter um site (mais que desatualizado!) incluído numa outra associação e de não ter uma página no Facebook inativa, imóvel, amorfa...  Gostaríamos que os treinadores se fizessem ouvir! Que levantassem a sua voz! Que comunicassem uns com os outros e que quebrassem o isolamento a que se sujeitam e a que os sujeitam…

Apetecia-nos dizer, através da nossa associação de classe, tal como Sidónio Muralha diria:

Algemados – não importa por que leis –
Seja qual for a vossa raça e a vossa casta,
Vinde dizer o que sabeis!
– por agora é quanto basta.


Gostaríamos de ter uma organização digna do seu nome que atribuísse uma identificação a cada associado, uma organização digna do seu nome que publicasse material de apoio aos treinadores e organizasse Acções de Formação não só com técnicos credenciados da nossa modalidade mas também com técnicos de outras modalidades e Professores Universitários.

Acima de tudo, seria lindo termos uma associação de classe que promovesse as competências dos Treinadores dedicados ao karate «desportivo», mas também aos que são a favor do karate «tradicional» e do “dō”, aos preocupados com a formação de Seres Humanos - o que se poderia conseguir através de estágios tradicionais de cada estilo com mestres de renome e de consenso entre as várias linhas... e ao mesmo tempo através da realização de colóquios, seminários ou conferências com pessoas especializadas na cultura japonesa e na filosofia da nossa modalidade.

Ouro sobre azul seria termos uma associação que representando-nos, tivesse uma bandeira dentro da nossa sociedade, colaborando pelo menos com uma instituição de solidariedade social. A visibilidade da organização só poderia credibilizar e dignificar os treinadores de karate-dō.

Gostaríamos de ter uma associação de treinadores que esclarecesse a todos as dificuldades que estarão para surgir com o novo Programa Nacional de Formação de Treinadores e com a Cédula de Treinador de Desporto, com a sua duração de cinco anos, com a supervisão pedagógica...

Será uma utopia? Pensamos que não, pois uma verdadeira associação de classe poderia unir-nos se por nós tivesse consideração... Os treinadores são os verdadeiros motores da modalidade! Sem treinadores nada mais há... nem competidores, nem prticantes, nem karate-dō!

Parafraseando José Fanha, diríamos que

Não sabemos de palavras vãs
peito aberto a meio da praça
somos construtores de amanhãs
em cada dia que passa.


Os treinadores de karate-dō têm sido construtores de amanhãs. Embora desamparados, alguns sós, têm sido construtores de amanhãs e pretendem prosseguir nesse caminho. 

Os treinadores de karate-dō merecem… há é quem não os mereça!!! 

* Zélia Matos, 1989, “Professor de Educação Física.  Aspectos éticos da sua profissão.”, in “Desporto, Ética, Sociedade”, FCDEF-UP.


Nota aos leitores deste post:

Se entenderem que devem continuar na vossa "quinta", 
se entenderem nada dizer para não criarem inimizades 
ou para defenderem os vossos privilégios,
então não comentem!

Revelarei depois quantas visitas o mesmo teve...


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Comemorar o 3 de outubro...

...
Todos os anos costumo comemorar o dia 3 de outubro... Este ano não comemorei - talvez porque 5 de outubro fosse o último feriado comemorativo da implantação da República, talvez porque 7 de outubro fosse o primeiro dia do karate-dō...

Mas quais os motivos? Simples - foi a 3 de outubro de 1973 que pela primeira vez enverguei um karategi! Um karategi feito por medida - sim, fui tirar medidas primeiro e foi confecionado depois -, pois ainda não os havia comercializados em barda (isto em Luanda) e muito menos de várias marcas. Um karategi em que não havia costuras na manga - tal como nos kimono - como nos de agora...

(fotos: arquivo pessoal)

Nesse dia fiz pela primeira vez a saudação à entrada do dōjō  - um dōjō ao ar livre, com piso de cimento, em que fazíamos bolhas debaixo dos pés que antes de rebentarem já tinham outras bolhas por baixo...

Etiqueta, aquecimento e primeiras técnicas ensinadas por João Fiel Lopes, na altura kyu... E a partir daí, sempre às segundas, quartas e sextas e ritual  mantinha-se, por vezes na praia ao fim de semana...

Não comemorei este ano no dōjō, mas fica aqui a comemoração!

(fotos: Cristina Lopes)

No próximo ano serão 40 anos... aí sim, espero comemorar de uma outra forma, agradecendo aos que me ensinaram e continuam a ensinar, aos que me têm acompanhado ao longo da vida nos momentos difíceis e nos momentos de glória, a alguns colegas com quem tenho compartilhado ideias, conhecimentos e suor, aos meus alunos - alguns que deixaram a prática mas que continuam em contacto comigo - com quem divido aquilo que faço e aquilo que sei...

No próximo ano...