terça-feira, 29 de novembro de 2011

黒帯驢馬 KURO-OBI ROBA. "O Burro Cinto Preto".


Era uma vez um comerciante muito rico que vivia a dizer que o seu burro era cinto preto de Karate-dô. Estava tão certo a este respeito que chegou a comprar um Karate-gi e um cinto preto à medida. Vestiu o seu burro com o karate-gi, atou o cinto à volta da barriga do burro e resolveu desafiar todos os mestres de todos os estilos de Karate para virem defrontar o seu animal!

Para tanto, decidiu escrever o seguinte cartaz:

DESAFIO QUALQUER CINTO PRETO A FAZER
ALGO A NÍVEL DE KARATE QUE O MEU BURRO
NÃO POSSA FAZER MELHOR!
RECOMPENSA:
Entrego imediata e gratuitamente todo o meu negócio comercial.

Espalhou cartazes por onde conseguia alcançar!

Passados alguns dias, alguém bate à sua porta:
- Toc, toc, toc!
- O que queres? - pergunta o comerciante.
- Vim desafiar o seu burro! - responde o truculento mestre de Karate.
Uns minutos após, os três, o comerciante, o burro e o mestre de karate dirigiam-se para a praça da cidade, onde seria o evento.
No local da competição, juízes a postos...
- SENHORAS E SENHORES, A COMPETIÇÃO VAI COMEÇAR! - ouvia-se nos altifalantes.
- E o que podes fazer de melhor? - pergunta o dono do burrito.
- Vou partir quarenta telhas com um Yoko-geri ("chute lateral")! - responde o mestre de Karate.
- Força! - diz o comerciante.
Tudo preparado. A população, aos gritos, apinhava-se para ver tal evento.
Telhas colocadas, o mestre prepara-se mentalmente por breves instantes e...
- KIIIIIIIIAAAAAAAAAAIIIIIIIIII!!!!!
- CRASHHHHHH!!
Quarenta telhas partida de uma ponta à outra!
Um verdadeiro espetáculo!
O comerciante olha para o seu burrito como se nada tivesse acontecido.
A população incrédula e agitada dividia-se sobre quem seria o vencedor.
O que viria a seguir?
Colocadas outras quarenta telhas em posição. É então que o comerciante diz:
- Não, não! Eu quero sessenta telhas!!
A população delira!!! Senhoras desmaiam, as crianças gritam... é a loucura total!
Colocadas mais vinte telhas... O burrito assume a sua posição com uma cenoura ainda a rodopiar na boca.
Ao toque do comerciante na orelha do burrito, este solta um grande "ió!!" ao mesmo tempo que dá um coice valente!
- CRASHHHHHH!!
Lá se foram sessenta telhas!! Todas partidas!
Foi a glória! O Burro havia derrotado um cinto preto de Karate de forma contundente!!
Vitorioso, o burrito volta ao estábulo com mais cenourinhas à sua espera.

Passados mais alguns dias...
- Toc, toc, toc! - batem à porta do comerciante.
- Ui! Deixa eu lá ver. Queres desafiar o meu burrito? Estou certo? - diz o comerciante.
- Sim! - responde o mestre de Karate com grandes calos nos nós dos dedos!
Lá foram eles novamente para a praça da cidade...
- SENHORAS E SENHORES, A COMPETIÇÃO VAI COMEÇAR! - ouvia-se nos altifalantes.
- E o que podes fazer de melhor? - pergunta o dono do burrito.
- Vou partir vinte blocos de pedra com um Gyaku-zuki ("soco invertido")! - responde o mestre de Karate.
Colocados os vinte blocos de pedra uns acima dos outros, a pilha sólida a ser partida era monstruosa! Parecia um pilar!
Tudo preparado, população, estações de rádio locais a transmitir o evento! Todos aos gritos, uns por cima de outros para ver tamanho espetáculo.
Telhas colocadas, o mestre prepara-se mentalmente através de um breve mokusô (“pensamento silencioso") e...
- AYÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!!!
- CRASHHHHHH!!
Vinte blocos de pedras partidos!!
Isso sim! Isso era realmente um feito extraordinário! Completamente fora do comum!
O comerciante olha para o seu burrito... e toma lá mais uma cenourinha!
Os colaboradores do evento voltam a empilhar mais vinte blocos de pedra para o próximo concorrente... E o que ocorre novamente? Exato!! O comerciante diz:
- Pára tudo, pára tudo! Eu quero trinta blocos de pedra!
Atendendo ao pedido do comerciante, mais dez blocos foram colocados.
A pilha de pedras que antes era uma monstruosidade agora estava gigantesca!
O comerciante - que não era burro - havia trazido uma plataforma que posicionava o seu burrito um tanto acima da pilha de blocos de pedras.
Ao ouvir o assobio do comerciante, o burrito zurrou como ele só... "iiióóóóó" e saltou da plataforma caindo com o seu pesado traseiro sobre a pilha de blocos de pedras!!
- CRASHHHHHH!!
Trinta blocos de pedras partidos!!
- Foi... foi... foi...
Não havia palavras para definir o que aquilo havia sido!
A população da cidade estava em êxtase.

Parecia mesmo que o burro era imparável!

Alguns até já o chamavam de "sensei Burro"!

Televisão, rádio, jornais... todo e qualquer meio de comunicação apenas tinha olhos e ouvidos para o burro que - na realidade - parecia mesmo ser cinto preto de Karate!!!!
Pois havia derrotado dois mestres sem grande esforço!

O comerciante que já era rico, ficou ainda muito mais rico - tantas eram as pessoas que, a partir deste momento, já apostavam enormes somas em dinheiro no burrito cinto preto!

Numa manhã,...
- Toc, toc, toc! - batem à porta do comerciante.
- Deixa eu lá ver. Queres desafiar o meu burrito? - diz o comerciante - com sorriso de orelha à orelha.
- Sim! - responde o mestre de Karate.
Lá foram eles novamente para a praça da cidade...
- SENHORAS E SENHORES, A COMPETIÇÃO VAI COMEÇAR! - ouvia-se nos altifalantes.
- E o que podes fazer de melhor? - pergunta o dono do burrito.
- Vais dar algum chute? - continua o comerciante.
- Não. - responde o mestre.
- Vais dar algum soco? - pergunta o comerciante, um pouco curioso.
- Não. - responde novamente o mestre.
- Então, o que sabes fazer? - pergunta o comerciante, já impaciente.
- Eu sei falar. - diz calmamente o mestre.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Foi o silêncio geral!
- Porque... - continua o mestre - o que diferencia um verdadeiro karateka (um ser humano) de um burro com um cinto preto ao redor da barriga não é a capacidade de dar coices ou emprego da força irracional, mas a capacidade de falar, de debater, aprender e transmitir o que aprendeu.


Quanto ao final da história?!

O mestre não quis nada dos negócios do comerciante, porque - como o próprio mestre disse naquele dia: "Pode ficar com os seus negócios e com o seu burrito, pois a minha vida de karateka é muito atarefada. Com o pouco tempo que me resta diariamente, estudo o que eu ainda não sei... porque ainda tenho muito o que aprender sobre a arte que escolhi."

FIM

(^_^)


Conto de autoria de Joseverson Goulart, que amavelmente autorizou a sua transcrição, com os nossos agradecimentos. Publicada a 25 do corrente em http://jojimonogatari.blogspot.com/.

7 comentários:

  1. O problema é que ainda havia quem levasse o burro a sério. O problema é que o burro conseguiu chegar a cinto negro. O problema é que um dos argumentos do burro é o facto de "estar" no karate há muitos anos.
    Burro mas não parvo!

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  2. Ora com esta história e com o comentário do José Ramalho, que mais há a dizer? ...

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  3. Para dizer?

    Existe muito burro aqui em redor...

    Muito faixa preta que parece papagaio sem se preocupar em ensinar bem e com conhecimentos...

    Muito faixa preta que ocupa cargos dirigentes sem saber que tem de deixar de ser treinador...

    Abraço!

    Pedro Correia

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  4. E..., com isto tudo, cheguei a conclusao que conheço muitos burros "cintos pretos"! Pior... e muitos comerciantes que andam com eles ao colo, sem nunca questionarem nada! E esta,... heim??? ;)

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  5. Há muita gente que é "burro" sem se aperceber! Ou será que não...?
    Enfim, o que me consola um bocado é saber que sou treinada por um Mestre e não por um Equus africanus asinus...

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  6. Com os meus agradecimentos, após receção por e-mail, de autor identificado:

    "Sensei Armando Inocentes!

    O senhor cada vez mais me impressiona! Ora com as suas próprias histórias, ora com outras que arranja aqui e ali nas suas pesquisas.

    Dra. Cristina, não se aborreça com os muito burros "cintos pretos" que conhece, pois não vale a pena; apenas vá-se desviando para não apanhar coices! (LOL). As estatísticas dizem que os burros estão em vias de extinção... mas são os de quatro patas... os outros são cada vez mais!!!

    HRamos"

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  7. Caro Armando !
    Obrigado pela excelente partilha.Infelizmente, está muito atual, pois, proliferam os burros com cinto negro, usam as patas , é verdade, mas não conseguem usar da melhor forma o que trazem entre os ombros. Quando temos cursos de formação de treinadores onde não se aborda, nem que fosse só sensibilizar para as questões da ética.
    Os burros dão jeito, sobe-se mais depressa, quem pensa é perigoso e a hierarquia teme-o.
    Os burros vão governando , no karaté e na vida.
    Precisamos de desafiá.los para um combate final.
    Grande abraço
    Luís Sérgio

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